Histórico

A Paróquia Santo André, foi desmembrada da Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição, fundada em 20 de junho de 1971, tem como padroeiro o Apóstolo André, santo que a Igreja celebra sua memória no dia 30 de novembro, data de seu martírio. No dia 30 de novembro de 2014, Dom Redovino Rizzardo elevou à qualidade de paróquia, nomeando o primeiro pároco, o Padre Otair Nicoletti. A equipe de Coordenação do Conselho Comunitário de Pastoral - CCP está formada pelas seguintes pessoas: Coordenação: Laudelino Vieira, Paulo Crippa; Assuntos Econômicos: José Zanetti, Valter Claudino; Secretaria: Marcus Henrique e Naiara Andrade.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

JUVENTUDE: VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS (IV)



IV
JUVENTUDE E VOCAÇÃO

1. Oséias e Gomer: dois jovens descobrem e assumem sua vocação
1. O contexto do chamado
Século VIII antes de Cristo, Reino de Judá. Naquele tempo, os reis se apresentavam como filhos de Deus, intermediários entre Deus e o povo. Para o povo poder estar bem com Deus devia estar bem com o rei. Os reis exibiam luxo e riqueza como sinal do poder e da grandeza do seu deus (1Rs 5,1-3.6; 9,26-28; 10,1-29). Para obter e manter essa grandeza e poder, eles precisavam de muitos escravos e de muito dinheiro (cf. 1 Sm 8,10-18). E é aqui que entra a manipulação da religião da fertilidade, cuja divindade principal era Baal, nome que significava patrão, dono.
Na opinião do povo, Baal manifestava o seu poder de fertilidade na produção dos alimentos e na reprodução da vida. Era Baal, assim eles pensavam, que fertilizava a terra por meio das chuvas e em nome de Baal se promovia o culto da prostituição sagrada nos pequenos santuários dos “lugares altos”. Era lá que o povo buscava uma intimidade maior com o deus da fertilidade através do contato com prostitutas e prostitutos sagrados. Esta prática religiosa era muito divulgada na Palestina. Existia muito antes da chegada dos israelitas. As ofertas e donativos do povo ao deus Baal eram para o rei. Os filhos e filhas que assim nasciam das prostitutas sagradas aumentavam o número de escravos e escravas do rei. Esta religião infiltrou-se na vivência diária do povo de Deus, foi assumida pelos reis de Israel e acabou sendo norma comum para todos
Neste contexto, viviam os jovens Oséias e sua namorada Gomer. Como todo mundo, os dois cresceram dentro daquele sistema enganador da monarquia de Israel. Foram educados para ver na pessoa do rei o filho preferido de Deus, porta-voz da vontade divina. Como a maioria das moças da época, Gomer, chegando à idade de casar, foi levada para os “lugares altos” da prostituição sagrada, onde foi prostituída, para que gerasse filhos e filhas para o rei. Tornou-se mãe solteira (cf Os 1,2). Em troca recebia comida e roupa para sustentar a família. Da mesma maneira, como a maioria dos rapazes, Oséias freqüentava os “lugares altos”. Chegando à idade de casar, procurou uma moça que pudesse ser sua esposa, e a encontrou entre as moças prostituídas.
Foi nesta situação ambígua que os dois se conheceram, se gostaram, casaram e começaram a conviver como marido e mulher. Ao mesmo tempo, Gomer continuava prestando o seu serviço no “lugar alto” da prostituição sagrada, e Oséias continuava freqüentando o culto de fertilidade. Gomer não era uma prostituta nem uma mulher adúltera ou infiel no sentido que nós damos hoje a estas palavras. Ela era, isto sim, uma moça prostituída, uma das muitas vítimas daquele sistema opressor dos reis que pervertia o sentido da vida, do casamento, da família e da religião.
Esta era a prática comum, aceita por todos como sendo o caminho normal, pois não havia outro jeito nem outro horizonte. Era como a situação de muitas moças de hoje que vivem na prostituição. Elas o fazem não porque gostam ou querem, mas por ser este o único meio que lhes sobrou para ajudar em casa e não morrer de fome. Tanto ontem como hoje, cria-se todo um jeito de pensar e de viver que impede as pessoas de tomarem consciência crítica, e elas acabam achando normal aquilo que, na realidade, é anormal, contrário à vida.
Esta situação geral em que se encontrava o povo já vinha de longe e parecia sem saída (Os 5,4). Mas com Oséias e Gomer aconteceu algo novo que mudou o rumo da história e fez nascer uma nova esperança. Foi a experiência do amor sincero entre os dois que os ajudou a perceber a contradição a que eram obrigados a submeter-se.

2. A lenta e progressiva descoberta da vocação
O drama do casal
Era em nome de Deus que a sociedade os obrigava a praticar a prostituição. Mas, aos poucos, os dois foram se dando conta de que, para eles, já não era possível combinar o serviço ao rei com este amor sincero que os unia e que lhes parecia igualmente um grande dom de Deus. De fato, o amor verdadeiro não consegue conviver com falsidade, mesmo quando esta é manipulada e apresentada como expressão da vontade de Deus. Pois como saber se o filho que nasce era deles mesmos, fruto do seu amor, ou de algum outro visitante do “lugar alto” a quem Gomer devia entregar-se em nome da sua obediência ao Rei e da sua dependência do sistema. Esta era a contradição que os amargurava.
O casal vive este drama. Por ora, os dois não vêem saída, nem vêem claras as coisas. A cabeça, instruída pelo catecismo do rei, dizia uma coisa; o coração, desejoso de viver o amor, dizia outra.  Muitos outros casais devem ter experimentado a mesma contradição, sem verem uma saída concreta. Sentiam-se ameaçados no mais profundo da sua vida. Viviam um drama que ameaçava na raiz, tanto o amor que os unia entre si, como o amor que tinham a Deus e ao povo. Como dirá mais tarde o livro de Oséias, tudo parecia contaminado por um “espírito de prostituição” (Os 4,12; 5,4).
Os dois descobrem a mão de Deus no amor que os une
Na mesma medida em que a vivência do amor fazia crescer neles a consciência crítica frente ao sistema do rei e frente à prática da prostituição sagrada, nesta mesma medida Gomer e Oséias foram descobrindo que este amor era uma expressão da presença bondosa e providente de Javé em suas vidas. Refletindo sobre o amor que os unia, os dois descobriram: “Era Javé que nos chamava para o casamento!” Ou como diz o livro de Oseias: “Javé me disse: vai e toma para ti uma mulher da prostituição e filhos da prostituição!” (Os 1,2).
Os dois começam a desconfiar do sistema da religião oficial. O que Deus pedia não eram esses sacrifícios e donativos que se ofereciam nos “lugares altos”, mas sim o amor e o respeito às pessoas: “Quero amor e não sacrifícios; conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). Assim começa a nascer lentamente a vocação, sem muita clareza, no meio das contradições da vida. Mas até chegar a total clareza da vocação, muita água teve que passar baixo da ponte. A vocação profética nasce devagar.
O amor os leva a desconfiar do sistema machista da religião de Baal
Cada vez que Gomer voltava do “lugar alto”, trazendo pão, água, roupa e comida para sustentar a família, e que se encontrava com Oséias, os dois devem ter-se olhado e devem ter sentido que, por mais que o rei dissesse que isto era a expressão da vontade de Deus, eles sentiam que Deus não podia estar de acordo com essa prática. A monarquia apresentava Deus como um Baal, como um patrão, igual ao rei, que se impunha ao povo como dono e proprietário das pessoas, dominando as consciências. Em muitas famílias, o próprio marido começava a comportar-se como um baal, como um patrão, dono e proprietário da mulher. Mandava nela e a mandava ir ao “lugar alto” buscar as coisas para viver e sobreviver com os filhos.
Gomer olhando para Oséias e experimentando o seu amor, se dava conta de que ele não era um baal, um patrão, mas sim um marido, um companheiro. Sentia e experimentava o seu amor e, por isso mesmo, sentia-se valorizada e não dominada nem condenada. Oséias olhando para Gomer e convivendo com ela no dia-a-dia da vida, sentia e experimentava que ela não era nem nunca poderia ser sua propriedade, mas era, isto sim, a sua esposa amada, companheira amiga, igual a ele. Sentia que, mesmo tendo que ir ao “lugar alto”, Gomer não era uma prostituta. Por isso, ele não podia nem queria abandoná-la, mas continuava a amá-la, pois só mesmo o amor seria capaz de devolver a ela e a ele mesmo a consciência da sua dignidade como gente e como filho e filha de Deus.
A experiência da força do amor humano leva à descoberta do amor de Deus
A experiência do amor levou os dois a descobrir não só os enganos da propaganda da monarquia, mas também algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito profundo dentro de si mesmos, a saber, a força do amor! O amor os fez renascer. Promovia neles a consciência de gente e de filho e filha de Deus. Em vez de abandonados e prostituídos, sentem-se amados e promovidos. Descobrem que a força do amor pode regenerar uma pessoa a ponto de ela sentir-se como que renascida, apagando nela por completo a consciência anterior de gente dominada, manipulada e prostituída.
E aí nasceu o clarão maior: assim como o amor os ajudava a aceitar-se mutuamente e a renovar o casamento de uma maneira nova, diferente do sistema dos reis, assim era o amor de Deus para como seu povo (Os 3,1). Javé não é um baal, um patrão que oprime e escraviza. Ele ama o seu povo com amor gratuito que ultrapassa tudo. Esta descoberta do amor de Deus é a raiz da vocação profética do casal, ou melhor, é a sua manifestação. A raiz foi a experiência humana do amor entre os dois que levou à descoberta do amor de Deus. O clarão maior do amor de Deus iluminou tudo e os ajudou a reler a história da sua própria vida e da vida do povo. As palavras tão bonitas com que Gomer e Oséias renovaram o seu casamento, são as mesmas que Deus dirige ao seu povo:
 “Agora, sou eu que vou seduzi-la, vou levá-la ao deserto e conquistar seu coração. Eu me casarei com você para sempre, me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você conhecerá Javé” (Os 2,16.21-22)
Nasce a vocação profética: com Deus na contramão
Oséias e Gomer criam coragem e rompem com o sistema dos reis. De comum acordo, decidem não freqüentar mais o “lugar alto” de prostituição: ”Por um bom tempo você ficará em sua casa para mim, sem se prostituir, sem relação com homem nenhum, e eu farei a mesma coisa por você” (Os 3,3). Eles tomam distância do sistema dos reis para poder refazer a Casa. Mudam o regime familiar para não se prostituir. Pois a Casa, a família, é mais importante que o templo e o “lugar alto”. Começam a viver na contramão da sociedade. Iniciam a ação profética de denúncia contra o sistema enganador dos reis e contra o “espírito de prostituição” que pervertia o sentido da vida do povo.
O povo tinha se afastado de Deus (Os 1,2; 4,12) e o “espírito de prostituição” impedia-o de conhecer a Javé (Os 5,4). O vinho e o licor lhe tiravam a razão (Os 4,11) e ele já não percebia que Javé o dirigia nos caminhos tortuosos da sua vida (Os 2,10; 11,3). Com a boca diziam a Deus: “Nós te conhecemos” (Os 8,2), mas a desintegração de sua vida mostrava que eles rejeitavam o conhecimento (Os 4,6).
Um novo horizonte se abre Gomer e Oséias. O conhecimento de Deus, fruto do aprofundamento do amor humano no amor de Deus, ajudou-os a encontrar saídas para refazer a solidariedade rompida entre as famílias e reconstruir a sociedade de maneira nova, diferente da maneira desastrosa da monarquia que vinha desintegrando o povo. “Nesse dia, - oráculo de Javé - eu responderei ao céu e o céu responderá à terra, a terra responderá ao trigo, ao vinho e ao azeite, e eles responderão a Jezrael. Eu a semearei na terra, terei compaixão da Não-Compadecida e direi ao Não-Meu-Povo: Você é meu povo! E ele responderá: Meu Deus!” (Os 2,23-24).
No momento em que ficou claro para eles o que Deus queria, nasceu neles a coragem para denunciar o sistema e convocar o povo a mudar de vida e de pensamento. O povo deve esforçar-se para conhecer a Javé, então Ele virá tão certo como a luz da aurora (Os 6,3). É hora de voltar para Javé (Os 10,12). Não deve ter sido fácil, pois a denúncia ia contra os interesses da monarquia. Oséias e Gomer são perseguidos (Os 9,8), mas a força que lhes vem da nova experiência de Deus é maior que a ameaça que vem de fora.
  
3. Jó: porta-voz das aspirações da juventude;
3.1. O contexto do chamado
Século V antes de Cristo. Naquele tempo, o ensino oficial dizia e repetia: “Sofrimento e pobreza são castigo de Deus. Riqueza e bem-estar, sinais de recompensa divina!” Esta era a imagem da justiça divina que era colocada na cabeça das pessoas, desde pequeno. Esta falsa maneira de representar o relacionamento entre Deus e o ser humano beneficiava os ricos e dava aos pobres e sofredores um complexo de culpa e de inferioridade. Era esta a imagem de Deus que Jó tinha na cabeça, mas não no coração! No coração ele tinha a intuição de que Deus não age assim.
              3.1.1 Um teatro
O livro de Jó é uma espécie de teatro, no qual se verbaliza a tensão que, naquela época, estava nascendo entre o ensino oficial da elite e a incipiente consciência rebelde dos sofredores. A sala está cheia de gente. O pano ainda está fechado. Um narrador entra e coloca o público a par do assunto que vai ser debatido no teatro. Ele diz: “Era uma vez, lá longe na terra de Hus, um homem chamado Jó...”(Jó 1,1). Ele conta que Jó era justo e correto, mas por uma intriga de Satan (promotor de acusação) Deus permitiu que Jó caísse na miséria e tivesse todos os sofrimentos possíveis e imagináveis (cf Jó 1,1 a 2,10). Três amigos, Elifaz de Tema, Baldad de Suás e Sofar de Naamat, ouvem falar da desgraça de Jó e vêm para consolá-lo. Chegando perto e vendo aquele sofrimento todo, perdem a fala e ficam em silêncio, sete dias e sete noites (Jó 2,11-13). A esta altura, o narrador sai, o pano abre e lá no palco está Jó, estão os três amigos Elifaz, Baldad e Sofar, mais um jovem, chamado Eliu (Jó 32,1.6). Todos em silêncio, tanto no palco como na sala! É o silêncio de quem não sabe explicar o sofrimento dos pobres inocentes. É o silêncio da expectativa diante do assunto do sofrimento do inocente que vai ser debatido no teatro. O silêncio perdura até hoje, pois ninguém sabe explicar tanto sofrimento dos inocentes pelo mundo inteiro!
Jó, os três amigos e o jovem vão debater o porquê de tanto sofrimento no mundo. O público já sabe que, no caso de Jó, a causa não é o pecado. Os que estão no palco ainda não sabem, mas vão tentar descobri-lo. Assim, o público tem em mãos um critério para verificar exatidão das respostas que vão ser dadas no teatro.
Quem rompe o silêncio é Jó. Um grito horrível: “Maldito o dia em que eu nasci!” (Jó 3,1-3) O povo na sala deve ter levado um susto e, ao mesmo tempo, deve ter sentido um grande alívio. Jó verbaliza o que os sofredores já estavam sentindo, mas ainda não tiveram a coragem de expressar.
               3.1.2 O debate
Começa o debate com seus altos e baixos. Jó representa a geração nova, cuja consciência estava começando a se rebelar. Os três amigos representam a visão tradicional, que eles defendem com unhas e dentes. Vão se alternando as intervenções e as réplicas. Dentro de Jó existe um conflito entre a cabeça e o coração, entre a tradição e a consciência. A cabeça de Jó, formada pelo catecismo oficial, dizia: “Você sofre e é pobre, porque cometeu pecado! Deus está te castigando!” Mas o coração lhe dizia: “Deus é injusto comigo, pois não pequei!”. A consciência, mandava rebelar-se contra as injustiças que se cometiam em nome desta falsa imagem de Deus. A cabeça, a tradição, mandavam ficar calado e obedecer, ficar bem quieto e não se rebelar, pois seria desobediência a Deus. O mesmo conflito agitava as pessoas na sala que assistiam ao teatro. Agita a todos nós, até hoje!
Jó não concorda com a imagem de Deus que a tradição comunicava ao povo. Em vez de libertar as pessoas, esta imagem contribuía para manter a situação de opressão em que o povo se encontrava. Ela fazia com que os pobres ficassem com o sentimento de que Deus já não ouvia o seu clamor e de que tinham sido excluídos da sua presença amiga (Jó 24,12). E este é o pior roubo que se pode fazer! Além de roubar deles os bens, roubavam também a presença amiga de Deus! Os pobres ficavam sem nada, sem ninguém neste mundo! (Jó 24,1-12)
No debate, Jó é fiel ao coração e não à cabeça! É fiel à sua vocação! Ele segue a consciência e não a falsa tradição! Acusa e critica os três amigos, que identificam a presença de Deus com o nível econômico das pessoas: “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!” (Jó 7,27). Mas nem tudo que Jó diz está certo, pois ele não consegue ver claro. No desespero as pessoas, às vezes, dizem coisas disparates. Desejam até a morte. Veja, por exemplo, o texto de Jó 3,3-26. Leia devagar e pense no sofrimento que está por de trás destas palavras. Você se reconhece neste Jó? Ele existe hoje? Onde e como?
Os três amigos defendem a imagem da justiça de Deus que a Tradição ensinava desde séculos. E a defendem contra os gritos desesperados de Jó. Defendem uma imagem de Deus que eles mesmos receberam dos antepassados: Deus, sendo justo, castiga o mal e recompensa o bem. Por isso, nem tudo que os amigos dizem está errado. Tem muita coisa bonita nas palavras deles, mas nem toda roupa bonita na vitrina da loja serve para o tamanho do meu corpo. Palavra bonita não serve como curativo para ferida aberta. Os três amigos falam bonito a partir da teoria que eles têm na cabeça. Eles não escutam o que Jó tem a dizer. Será que estes amigos ainda existem? Como se manifestam? Às vezes, parece que Jó e os três amigos existem também dentro da gente. O debate do livro de Jó se faz na sociedade, na comunidade e até dentro da gente!
3.2. A resposta de Jó à vocação que lhe vinha dos fatos
Ao longo do debate com os três amigos, Jó descobre que o problema de fundo não são os três amigos. Estes são meros charlatães, “manipuladores de mentiras” (Jó 13,4). Eles querem “defender a Deus usando mentiras e injustiças” (Jó 13,7). O problema de fundo é a imagem de Deus que a tradição comunica ao povo. Jó quer saber se esta imagem é verdadeira, ou falsa. Se é mesmo o rosto de Deus, ou se é apenas uma máscara que os ricos e os doutores colocaram no rosto de Deus para poder manipular a religião em seu próprio proveito. Jó quer encontrar-se com Deus para saber por experiência direta como Ele é. Quer saber se Deus é conforme aquilo que a “cabeça” e a “tradição” ensinam, ou se é conforme o que o “coração” e a “consciência” sentem e adivinham. Jó quer “discutir com o próprio Deus” (Jó 13,3). Quer que um tribunal de justiça decida entre ele e Deus para saber se ele é ou não é culpado como os três amigos andam dizendo (Jó 23,1-9; 13,13-24). Jó tem muita coragem!
Jó arrisca tudo (Jó 13,14) e vai gritar que é justo e inocente (Jó 6,29). Esta atitude não é orgulho nem falta de humildade. Mas é o sentimento de um homem sincero que quer denunciar a falsidade e a mentira do sistema que usa Deus e a religião para manter uma situação de injustiça.
Depois da longa discussão com os três amigos, entra em cena um jovem, chamado Eliu (Jó 32,1-2). Ele assistiu ao debate e diz que os três amigos não foram capazes de refutar os argumentos de Jó (Jó 32,12). Sendo jovem, deixou os anciãos falar (Jó 32,7-9). Agora, ele vai refutar a Jó, mas a sua longa e monótona argumentação (Jó 33,1 a 37,24) repete os mesmos argumentos dos velhos. Apesar de jovem, ele é mais conservador que os três velhos. É pena! Hoje, às vezes, a gente encontra jovens assim. É pena!
Desesperadamente, Jó refuta os argumentos dos amigos, um depois do outro. Mas não basta refutar os argumentos, não basta rasgar a fotografia antiga que já não presta nem corresponde à realidade. É preciso tirar uma nova fotografia para poder orientar o povo. E para tirar uma nova fotografia, é necessário ter a presença da pessoa. Pouco a pouco, ao longo do penoso debate, uma nova imagem de Deus vai chegando mais perto, anunciando a sua presença amiga na vida de Jó. Através dos nove discursos com seus altos e baixos, a gente percebe que Jó progride na descoberta.
O que o ajudou foi a reflexão sobre a Sabedoria Divina que se manifesta na natureza e na vida (Jó 28,1-28; 38,1 até 41,26). Refletindo sobre os grandes mistérios da vida e da natureza, Jó experimenta Deus de perto e descobre que Deus é maior do que a doutrina dos três amigos, maior que o falso deus dos ricos, maior também que as idéias do próprio Jó a respeito de Deus. Existe algo de trágico em toda esta discussão de Jó com os três amigos. É a vocação que lhe vem do “coração” e da “consciência” que o empurram a rebelar-se e a gritar. Mas é a “cabeça” e a “tradição” que lhe inspiram as palavras. Ele não tem outras. Por isso, ele grita contra Deus o tempo todo. Na realidade, se ele grita contra Deus, não é contra o Deus que sobe de dentro do seu coração, mas é contra o Deus que os três amigos defendem. Jó briga é com esta falsa imagem de Deus e é isto que ele expressa no fim do debate. A frase final é a chave de ouro que explica tudo. Jó se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42,4-6).
Jó teve uma nova experiência de Deus e descobriu que a sua rebelião e luta não eram contra Deus, mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava a consciência das pessoas, destruía a convivência e estava atrapalhando a ele em tudo (Jó 10,1-7; 16,7-14). Jó renasceu! Ao descobrir que o verdadeiro Deus não era nada daquilo que os amigos ensinavam, Jó cai em si e diz: “Por isso eu me retrato e me arrependo, sobre pó e cinza” (Jó 42,6).
Neste momento, o pano fecha, o teatro termina e entra novamente o narrador para dar, em nome de Deus, a sentença final. Ele diz a Elifaz: "Estou irritado contra você e seus dois companheiros, porque vocês não falaram corretamente de mim como falou o meu servo Jó” (Jó 42,7). Esta sentença final traz uma surpresa trágica e esperançosa: os três amigos que defenderam a Deus o tempo todo, falaram mal de Deus; Jó que atacou a Deus o tempo todo, falou bem de Deus! Assim, nem sempre os que se apresentam como defensores da verdadeira doutrina falam corretamente do Deus verdadeiro. Nem sempre os que são desaprovados por criticarem a maneira tradicional de apresentar a imagem de Deus e de Jesus, são desaprovados por Deus.
No fim, o livro de Jó deixa uma pergunta em todos nós: “O que será que Jó descobriu a respeito de Deus? Qual foi a nova experiência?” O texto não responde, mas sugere: “Se você quiser saber o que Jó descobriu, percorra o mesmo caminho que ele percorreu!” Esta é a maneira típica dos sábios de orientar as pessoas no discernimento da sua vocação. Não fazem saber, mas fazem descobrir. Não dão tudo trocado em miúdo, mas apontam um caminho. Qual a imagem de Deus que a igreja comunicou ao povo ao longo dos séculos e que agora está sendo questionada pelo Jó de hoje?
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto: 
1. O que mais chamou sua atenção na vocação dos jovens Oséias e Gomer? Por que?
2. Conhece algum casal profético hoje? Onde e como?
3. O que mais chamou a sua atenção na atitude de Jó? Por que?
4. Jó existe hoje? Aonde e como? Dentro de você existe um Jó?

JUVENTUDE: VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS (III)



III
IMAGEM DE DEUS E DESCOBERTA DA VOCAÇÃO

Na parábola do bom samaritano, a mesma situação do homem assaltado e meio morto à beira da estrada fez um apelo a três pessoas diferentes: sacerdote, levita e samaritano. A resposta não foi a mesma. Imagine um membro do MST e um arauto de Cristo, confrontados com o mesmo fato: uma invasão de terra que resultou em duas mortes e quatro feridos. Responderão do mesmo jeito? Não responderão. Por que? Dependendo da posição social e da imagem que as pessoas se fazem de Deus, elas reagem diferentemente diante dos apelos ou da vocação que vêm dos fatos da vida.
Vamos ver como as pessoas e os grupos reagiram diante da vocação que lhes vinha da situação de fracasso do cativeiro. É para que nós, quando confrontados com os fracassos e problemas, tanto da nossa história pessoal, como da história da Brasil, da Igreja, da família, da comunidade, possa discernir a vocação certa e dar a resposta acertada.
1. O fracasso do cativeiro fazendo apelo à consciência do povo
O cativeiro destruiu o quadro das referências que tinham orientado o povo até àquele momento. Os três grandes sinais ou “sacramentos” que tinham sido a garantia visível da presença de Deus no meio deles, foram destruídos! O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16), já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sempre (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).
Perdido e sem rumo, provocado pelo fracassos, o povo procurava uma saída que lhe desse segurança e esperança. O que mais pesava era o sentimento do abandono, misturado com um complexo de culpa (Is 40,27; 49,14; Lm 1,8.14). Eles pensavam que, por causa da sua infidelidade, Deus tivesse mudado de atitude e os tivesse rejeitado para sempre (Sl 77,8-11; 79,5). Ele já não estaria escutando o grito do povo (Lam 3,8; Sl 22,2-3). Beco sem saída! Eis o lamento do porta-voz do povo:
"Eu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo. Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, e me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou gritar não adianta, ele está surdo à minha súplica.  ....  Fugiu a paz do meu espírito, já não sei mais o que é ser feliz. Eu digo: "Acabaram-se minhas forças e minha esperança que vinham de Javé" (Lam 3,1-8.17-18).
A imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a de um carrasco que só quer vingar e machucar. Trágica experiência! Fonte de desespero! Uma experiência de Deus assim não pode ser fonte de vocação para ninguém. Fecha qualquer saída e joga todos no desespero. Como sair desta situação? Como e onde reencontrar Deus? Eram estas as perguntas que agitavam as consciências e as conversas de muita gente. Era este o apelo, a vocação, que os provocava. Qual a resposta acertada?
2. As várias respostas ao apelo de Deus
Apareceram várias respostas. Inicialmente, não eram respostas distintas, separadas umas das outras, mas sim tendências diferentes, misturadas entre si, sem muita clareza, num ambiente de busca e desencontro. Exatamente como hoje!
1. A maioria silenciosa adotou os deuses do império e se acomodou
A maioria dos exilados se acomodou e começou a freqüentar a religião do império da Babilônia. Adotaram os ídolos e o jeito de viver dos grandes. Era a maioria silenciosa! Hoje também, a maioria silenciosa busca o caminho mais cômodo do consumismo, a nova religião do império neoliberal com seus templos grandiosos.
2. Zorobabel e Josué queriam reeditar o passado, mas não conseguiram
Para eles, o fato de estar fora da própria terra era o mesmo que estar longe de Deus! A época dos Reis era o modelo a ser imitado. Queriam reconstruir o passado: o templo, a monarquia e a independência política (Esd 1,2-4; 2,1-2). Deste grupo eram Zorobabel, Josué, o profeta Ageu e outros. Eles voltaram para Palestina em 520 aC, depois que Ciro permitiu o retorno. Hoje, alguns querem de volta da cristandade.
3. Neemias e Esdras: adaptaram o modelo antigo à nova situação
É o grupo das pessoas que conseguiram bons empregos e posições vantajosas na nova pátria, como transparece nas entrelinhas de vários livros (Ne 2,1-9; Esd 7,11-26; Tb 1,12; Es 2,16; 6,10-11; Dn 3,97). Eles achavam que deviam aceitar o domínio do rei estrangeiro e colaborar com ele (Jer 27,6-8.12.17; 42,10-11). Ao mesmo tempo, queriam continuar a ser o povo eleito de Deus. Por isso, insistiam na observância da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça que proibia o contato com os outros povos (Esd 9,1-2). Eles atuavam a partir de uma posição de privilégio e de um certo poder frente às outras instituições da convivência humana. O projeto deles tornou-se hegemônico a partir de 445 aC com a vinda de Neemias como encarregado do rei da Pérsia para reorganizar o povo judeu ao redor de Jerusalém. Hoje, em alguns países, a relação igreja-estado às vezes tem características semelhantes: de um lado, abertura frente o poder civil para conseguir favores para a Igreja e, de outro lado, insistência no direito da Igreja de poder viver sua fé publicamente com total liberdade.
4. Discípulos e discípulas de Isaías: movimento de base que encontrou uma saída
Um outro grupo achava que a solução não era voltar ao passado nem acomodar-se no presente, nem adaptar-se às exigências do império, mas sim aprender a ler com outros olhos a nova situação em que se encontravam. Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos quer ensinar e o que ele pede de nós, através desta situação tão trágica do cativeiro? Qual agora a nossa vocação” Eles procuravam voltar às origens do povo e reliam as histórias do passado para encontrar nelas uma luz que os ajudasse a redescobrir o chamado de Deus naquela terrível ausência. Foi no meio deste grupo dos discípulos de Isaías que brotou uma nova experiência de Deus, registrada sobretudo nos capítulos 40 a 66 de Isaías. Era um movimento de base, que não chegou a ter um reconhecimento oficial.
São quatro maneiras diferentes de responder ao mesmo desafio do momento histórico. Vamos olhar de perto a resposta que foi dada pelos discípulos e discípulas de Isaías, pois é ela que inspirou e animou a Jesus.
3. A resposta dos discípulos e discípulas de Isaías
A nova imagem de Deus
Como tantos exilados e migrantes de hoje, o único espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles lá no cativeiro da Babilônia era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, um irmão ou irmã, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte da vida já não existia: a organização mais ampla da tribo, a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia. Nada disse tinha sobrado. Ora, foi exatamente nesse espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que eles reencontraram a presença de Deus.
As imagens que eles usavam para expressar e transmitir a nova experiência da presença de Deus na vida refletem bem este ambiente familiar da casa. Deus é apresentada por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (goêl ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à Monarquia, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da vida familiar e comunitária de cada dia. Eles humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído (Is 57,15)!
Dá para entender que a elite dos chefes e dos sacerdotes não gostava muito desta maneira de interpretar e comunicar a presença de Deus. No entanto, aqui está a fonte que suscitou tantas e tantas vocações ao longo daqueles quatro séculos até à chegada do Novo Testamento, e que orientou a Jesus na sua missão junto ao povo!
A resposta à vocação: um novo jeito de trabalhar com o povo
Esta nova experiência de Deus fez com que os discípulos e discípulas de Isaías redescobrissem sua vocação e missão, não mais como um povo eleito, privilegiado, separado dos outros, mas sim como povo eleito por Deus para servir a humanidade (Is 42,1-6; 49,1-6; 50,4-9). E lá mesmo no cativeiro, eles começaram a colocar em prática esta sua vocação ou missão de serviço. A resposta à vocação se traduz numa nova maneira de trabalhar com o povo, numa nova pastoral. Eis três características desta nova pastoral:
       Acolher o povo com muita ternura
Para um povo que vive machucado e triste, na solidão do cativeiro, não bastam a imposição de preceitos e as ameaças da lei, não basta nem mesmo a denúncia profética, para que ele levante a cabeça e comece a enxergar a situação com esperança renovada. É necessário, antes de tudo, cuidar das feridas do coração, acolhendo-o com muita ternura e bondade, para que não morra nele a esperança. Os discípulos e as discípulas de Isaías têm uma conversa atenciosa, cheia de ternura e consolo, de acolhimento e encorajamento. As primeiras palavras: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is 40,1) ressoam pelas páginas do livro inteiro, do começo ao fim (Is 49,13; 51,12). “Eles não gritam nem apagam a vela que ainda solta um pouco de fumaça” (Is 42,2-3). Ou seja, machucados, não machucam. Oprimidos pela situação em que se encontram, não oprimem, mas tratam e acolhem o povo com muito respeito e carinho. Usam uma linguagem simples, concreta e direta, numa atitude de ternura nunca vista antes, que funcionava como bálsamo, e dispunha as pessoas para olhar a realidade com mais objetividade. Eis alguns exemplos: Is 54,7-8; 41,9-10; 41,13-14; 40,1-2; 43,1-5; 46,3-4; 49,14-16; etc. Era a maneira de os jovens discípulos e discípulas de Isaías assumirem sua vocação.
       Ensinar dialogando em pé de igualdade
Nas entrelinhas dos capítulos 40 a 66, transparece uma atitude de escuta e de diálogo. Os discípulos e discípulas de Isaías ensinam dialogando, em pé de igualdade com o povo. Eles conversam, fazem perguntas, aprendem com o povo, questionam, levam o povo a refletir sobre os fatos (cf Is 40,12-14.21.25-27; etc.). Este jeito de ensinar é próprio de quem se considera discípulo e não dono da verdade (Is 50,4-5). Antes de ser “Mater et Magistra”, a comunidade deve ser “Discípula e Aprendiz”. Um discípulo não absolutiza seu próprio pensamento, nem impõe suas idéias autoritariamente, não é clerical, mas sabe ensinar escutando e aprendendo dos outros. Por este seu jeito de conviver e de tratar com o povo, os discípulos não só falam sobre Deus, mas também o revelam; comunicam algo do que eles mesmos experimentam e vivem. Deus se faz presente nesta atitude de ternura e diálogo. O povo se dá conta de que o Deus dos discípulos é diferente do deus da Babilônia, diferente também da imagem clerical de Deus que eles ainda carregavam na memória, desde os tempos da monarquia, de antes da destruição do Templo, e que o projeto de Neemias e Esdras parecia querer impor outra vez. Assim, aos poucos, os olhos se abrem. O povo começa a perceber algo do novo que estava acontecendo. “Não estão vendo?”(Is 43,19)
       Fazer reunião semanal para rezar, meditar e se ajudar
É no período do cativeiro ou logo depois que se começa a insistir novamente na observância do sábado (Is 56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf. Gn 2,2-3). Era para que o povo exilado tivesse ao menos um dia por semana para se encontrar, partilhar sua fé, louvar a Deus e, assim, refazer as forças e animar-se mutuamente. É nestas reuniões semanais que eles refrescam a memória (Is 43,26; 46,9), contam as histórias de Noé (Is 54,9-10), de Abraão e Sara (Is 51,1-2), da Criação (Is 45,18-19; 51,12-13), lembram o Êxodo (Is 43,16-17), apontam os fatos da política e perguntam: “Quem é que faz tudo isto?" (Is 41,2). Fazem reunião de noite, fora de casa, e perguntam: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso?” (Is 40,26). A resposta é sempre a mesma: "É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!".
Assim, aos poucos, a natureza deixa de ser o santuário dos falsos deuses; a história já não é mais decidida pelos opressores do povo; o mundo da política já não é mais o domínio de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se aliados dos pobres na sua caminhada como Servo de Deus e “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6). Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo: "Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão vendo?" (Is 43,19).
Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa Notícia, desperta (Is 51,9.17; 52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar (Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10; 63,7) e a resistir (Is 48,20).
Hoje vivemos uma situação semelhante. Grande parte da humanidade vive num terrível cativeiro, desacreditou da fé que recebeu dos pais e adotou a religião do império que é o consumismo. Surgem muitos grupos para reagir em contrário e reafirmar a fé. Mas nem todos pensam e agem na mesma direção. Quais as direções em que as pessoas e os grupos procuram responder ao apelo que lhes vem desta situação? Com qual das tendências você se identifica mais e em qual delas você procura viver e assumir sua vocação?

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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:

1. O que mais chamou sua atenção nesta reflexão sobre a imagem de Deus e a descoberta da vocação? Por que?
2. Qual das quatro respostas predomina hoje na Igreja? Por que?
3. Com qual das quatro respostas você mais se identifica?
   * com a maioria silenciosa que se acomoda e adota os costumes do império?
   * com os que querem voltar ao passado? (Zorobabel e Josué)
   * com os que procuram unir os favores e privilégios do império com as exigências da missão do povo de Deus? (Esdras e Neemias)
   * com os que querem descobrir os apelos de Deus na realidade de hoje à luz do que Deus fez no passado? (Discípulos e discípulas de Isaías)


           CESEP, CURSO DO VERÃO, 14 a 16 de janeiro de 2008

JUVENTUDE: VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS (II)

 


II
AS RESISTÊNCIAS À VOCAÇÃO

Vamos ver três casos de resistência à vocação: Abraão e Sara resistem porque não conseguem crer na vocação e, por isso, apresentam caminhos alternativos. Moisés resiste porque tem medo da vocação e não quer comprometer-se.  Eliasresiste porque confunde o Deus que chama com a imagem que ele mesmo se fazia de Deus e, por isso, sem se dar conta, busca a resposta numa direção errada. São três casos de vocação de pessoas que viveram antes de nós. São, ao mesmo tempo, arquétipos, modelos, símbolos do que acontece ou pode acontecer com todos nós. São espelhos, nos quais reconhecemos algo de nós mesmos. Eles nos ajudam a entender melhor o que se passa dentro de nós.
1. O Chamado de Abraão e Sara
      1.1 Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo estava no cativeiro da Babilônia. A política expansionista do império de Nabucodonosor, rei da Babilônia, destruiu Jerusalém e arrasou com o Templo. Matou o rei e acabou com a indepen­dência política do reino de Judá. Isto foi no mês de agosto do ano 587 antes de Cristo. As grandes promessas do passado não se realizaram. O povo estava de volta na mesma terra de onde, 1300 anos antes, Abraão e Sara tinham saído para a Palestina em busca da Terra Prometida. O povo estava na escuridão (Lam 3,2-6), sentia-se injustiçado por Deus (Is 40,27; 49,14), tinha perdido a auto-estima, achava que sua vida já não tinha valor nenhum e que todo o seu esforço não adiantava para nada (Is 49,4). Vivia oprimido e disperso, sem encontrar os sinais da presença de Deus na vida (Sl 77,8-11). Muitos tinham se acomodado e diziam: “Deus se esqueceu de nós” (Is 40,27). Abandonaram Javé e começaram a crer nos deuses do império da Babilônia que lhes pareciam mais fortes!.
E no entanto, foi a esse povo desanimado e sem futuro que Deus estava chamando para ser Luz das nações (Is 42,6; 49,6). Sua vocação era anunciar a justiça (Is 42,6), libertar os oprimidos (Is 61,1), unir as tribos de Jacó (Is 49,5-6), levar a mensagem de Deus até os confins da terra (Is 49,6). Difícil crer num chamado assim!  –“Quem somos nós para realizar uma vocação assim!” De fato, a maioria nem lhe dava atenção. Dava risada.
Mas um grupo pequeno, discípulos e discípulas de Isaías, começou a lembrar e aprofundar a história de Abraão e Sara. Em vez de desanimar, diziam o contrário: “É agora que nós temos que ser Abraão e Sara! Esta é a nossa vocação!” E repetiam ao povo:
 “Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que os deu à luz! Quando os chamei, eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)
 Lembrando a história antiga de Abraão e Sara, em cuja terra estavam exilados, em vez de desanimar, os discípulos de Isaías se enchiam de esperança: “Nossos pais Abraão e Sara conseguiram! Nós também vamos conseguir!” Hoje acontece o mesmo. Muitos se acomodam, mas outros dizem o contrário: “É agora que nós temos que ser Zumbi! Tiradentes! Santos Dias! Oscar Romero! Padre Josimo! Irmã Doroty! Esta é a nossa vocação!”
Para ajudar o povo do cativeiro a descobrir e assumir esta sua vocação, os discípulos de Isaías começaram a contar novamente a história de Abraão e Sara, mas a contavam de tal maneira que o povo pudesse descobrir nela sua própria vocação e a maneira de como realizá-la. As narrações sobre Abraão e Sara, conservadas no livro de Gênesis, refletem não só a história do casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas também, como num espelho, a situação difícil e sem horizonte do povo no cativeiro da Babilônia. A maneira dramática como é narrada a história de Abraão e Sara deixa transparecer como era difícil para o povo do cativeiro crer na vocação que lhe vinha de Deus e sugere, ao mesmo tempo, como ele devia fazer para crer na vocação e assumi-la. Estas narrações também são espelho para nós hoje refletirmos sobre a nossa vocação, sobre o nosso chamado.
      1.2. O chamado
Eis como começa o chamado para sermos Abraão e Sara, para refazermos a história:
Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que haviam adquirido em Harã. Partiram para a terra de Canaã e aí chegaram.  (Gn 12,1-5)
A promessa de ser pai de um povo e fonte de bênção para toda a humanidade é uma vocação bonita que atrai. Vocação importante de grande alcance. Mas a condição para poder ser pai de um povo é ter ao menos um filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril e avançada em idade. A condição para Abraão crer na sua vocação era crer em Sara, crer que Sara pudesse ter um filho. Difícil crer numa promessa assim! Era mais fácil crer no projeto que os dois iam elaborando como possível alternativa para uma promessa aparentemente impossível.
      1.3. As propostas alternativas
Foram três as propostas alternativas que os dois elaboraram. Mas também foram três as pancadas que levaram, três os impasses que enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o caminho. Tem gente que leva dez pancadas, outros caem vinte vezes até aprender. Outros não levam pancada nenhuma nem caem, porque já estão deitados no chão, são humildes. Vejamos as propostas alternativas de Abraão e Sara:
             1.3.1. A primeira proposta alternativa à promessa de Deus: Eliezer
Humanamente falando, a vocação de Deus ultrapassava as possibilidades reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter nenê. A primeira proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar Eliezer, seu empregado, como substituto de um (im)possível filho (Gn 15,1-6). Conforme as leis da época, Abraão poderia adotá-lo como filho. O filho de Eliezer seria neto de Abraão, e a promessa de ser pai de um povo estaria garantida, a vocação estaria realizada. No fundo, Abraão não acreditava na promessa. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser filho seu!” (cf. Gn 15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!
             3.2. A segunda proposta alternativa à promessa de Deus: Ismael
Para poder crer na sua vocação, Abraão devia crer em Sara, e Sara devia crer em Abraão. Não basta crer em Deus abstratamente. A vocação está ligada a pessoas concretas. A segunda proposta foi a de apresentar Agar, escrava de Sara, para ser mãe do futuro filho (Gn 16,1-16). Novamente, os dois não deram conta de crer em si mesmos nem na vocação. Achavam que a promessa só poderia realizar-se através de Agar, isto é, através do projeto que eles tinham imaginado. Nasceu Ismael, filho de Abraão e Agar. O nome Ismael significa “Deus ouviu!” Através de Ismael, filho de Abraão, o povo estava garantido. Novamente, vem a resposta de Deus: “Ismael, não! Terá que ser filho de Sara!” (Gn 17,15-19). É a segunda rasteira. E novamente, tudo voltou à estaca zero!
             1.3.2. A terceira proposta alternativa à promessa de Deus: Isaque
Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os recebeu com muita hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter nenê no ano seguinte. Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17). Todos rimos, porque não acreditamos em nós mesmos, nem na vocação. Só acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no que Deus é capaz de fazer por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara, e nasce o filho que recebe o nome de Isaque, o que significa Risada (Gn 21,1-7). De Deus não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque clareou o horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a vocação estava realizada. A bênção prometida ia poder irradiar para todas as nações da terra. Mas aqui acontece uma coisa muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão tem um fundamento concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o fundamento da esperança passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido por Deus. E aí a palavra de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te mostrar!” (Gn 22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou para antes do começo.
             1.3.4 A resposta final à promessa de Deus: a entrega total
Desta vez, Abraão não discute, não diz nada. Ele é obediência muda. Apenas age (Gn 22,3-10). Não se fica sabendo o que ele pensa. O texto não informa. Cada um de nós, lendo o texto e confrontando sua atitude com a de Abraão, deve preencher a informação que falta no texto. No último momento, Deus manda Abraão parar. Não pode sacrificar o filho (Gn 22,11-19). Basta a obediência, interpretada pela carta aos hebreus da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). “Abraão acreditou em Deus e isto lhe foi imputado como Justiça, e ele foi chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6).
“Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,19). Símbolo, modelo, arquétipo! De que maneira? Poderíamos continuar o comentário da carta aos hebreus dizendo: Todos nós, casados ou solteiros, todos e todas temos um Isaque, do qual não abrimos mão, que consideramos o fundamento da nossa vida, e sem o qual não poderíamos imaginar nossa vida. Chegará o dia em que Deus (a vida) pedirá a mesma coisa: Sacrifique esse seu Isaque, para que a esperança seja colocada em Deus, só nele!
Responder à vocação, comprometer-se de fato, é um processo, que ocupa a vida inteira. É fruto de lenta e dolorosa purificação. É como descascar uma cebola. Você tira uma casca, e terá outra casca para tirar. Você grita: “Pare! É o miolo!” E não é o miolo, é casca. Cebola não tem miolo. Só tem casca. E enquanto descasca a cebola você chora. Até descobrir que não temos miolo. Só temos casca, pois não fomos feitos para nós mesmos, mas para Deus e para os outros.
2. O chamado de Moisés
      2.1. Situando o chamado
Grande parte dos livros de Gênesis e Êxodo foi escrita na época do cativeiro ou logo depois. As longas histórias dos patriarcas e matriarcas, do êxodo e dos quarenta anos no deserto eram narradas e foram escritas para ajudar o povo do cativeiro a redescobrir sua missão  como povo de Deus. É com esta finalidade que o livro do Êxodo narra a história da vocação de Moisés.
O diálogo do chamado entre Deus e Moisés se prolonga por vários capítulos. É o diálogo do povo do cativeiro com Deus, é o diálogo de todos nós. Nele aparecem as resistências, os medos, os pretextos reais ou imaginários que inventamos para poder escapar da vocação. O diálogo entre Deus e Moisés é um espelho do diálogo que nós travamos com a realidade que nos desafia, com a consciência que nos incomoda, com Deus que nos chama.
Quando as coisas acontecem, a gente nem sempre percebe logo todo o seu significado. Não percebe nem entende logo o apelo ou a vocação de Deus que existe dentro dos fatos, e pode até dar uma resposta errada. Jeremias, por exemplo, ficava devendo a resposta diante da situação de injustiça que se alastrava no país e que o deixava perplexo (Jr 12,1-3). Moisés sentiu um chamado diante do maltrato do seu povo, mas não deu a resposta certa. Sem refletir, matou um egípcio e teve que fugir (Ex 2,11-15). Demorou quarenta anos (cf. At 7,23.30; Ex 7,7) até ele sentir de novo o chamado vindo do povo (Ex 3,7-10). O claro e o escuro convivem na pessoa chamada. A Palavra que chama é, ao mesmo tempo, fonte de alegria e de angústia (Jer 15,15-16; 20,7-18).
A raiz desta contradição aparente está não só nas contradições da vida e da situação social, mas também na natureza do chamado que vem de Deus. A certeza que a experiência de Deus nos transmite é aceita na fé e nem sempre se traduz em certeza humana de nível psicológico. A certeza que Deus comunica é uma só: "Va! Estou com você!" (Jr 1,8; Ex 3,12). Ela não faz a pessoa chamada ficar mais inteligente ou mais perspicaz, não muda o seu caráter, nem aumenta o grau do seu conhecimento. Ela é como a luz do sol que de repente ilumina tudo, transformando tudo, sem mudar nada. Ela ajuda o chamado a relativizar tudo em função do único absoluto que é Deus e a vida do povo, ambos fonte da sua vocação e missão.
      2.2. O chamado
É no contexto deste diálogo, que a Bíblia, em seis versículos (Ex 3,10-15), explica o significado do nome JAVÉ como sendo o fundamento último da nossa vocação. Estes seis versos têm uma densidade teológica muito grande. Refletem a nova experiência de Deus que o povo foi adquirindo naqueles anos difíceis do cativeiro. Explicam a importância do nome JAVÉ para a aceitação e realização da vocação que recebemos. Em hebraico, o nome JAVÉ é escrito com estas quatro letras JHWH.  Eis em gráfico esquemático o texto abreviado de Êxodo 3,10-15:

Eu te envio a Faraó para fazer sair meu povo (Ex 3,10)  
Quem sou eu para ir ao faraó? (Ex 3,11)         
Va! Estou com você! (Ex 3,12)                                       
O povo vai perguntar: Qual o seu nome? (Ex 3,13)          
Estou que estou! (Ex 3,14)                                            
Assim dirás: Estou me mandou. (Ex 3,14)                         
Assim dirás: Está me mandou. (Ex 3,15).           
Este é o meu nome para sempre (Ex 3,15)      
Assim serei invocado de geração em geração. (Ex 3,15) 

Reafirma a expressão anterior: Estou com você
Estou repete e abrevia Estou que Estou
Está em hebraico se escreve JHWH ou JHJH
O nome é JHWH, o que significa Estou com você

O texto utiliza um jogo de palavras para comunicar o significado profundo do nome Javé, JHWH. Este nome é muito antigo de origem desconhecida, mas no diálogo de Deus com Moisés o nome antigo é associado com a promessa divinaEstou com você. Moisés não crê nesta promessa. Por isso, repetindo o mesmo verbo Deus reafirma a promessa e diz: Estou que Estou. Ou seja: “Certissimamente estou com você, Moisés! Disso você não pode duvidar”. Em seguida, Deus abrevia a mesma expressão para sua forma reduzida e diz Estou. No fim, o texto passa da primeira pessoa singular do verbo (Estou) para a terceira pessoa do mesmo verbo e diz Está. Em hebraico, a terceira pessoa singular do verbo estar se escreveJHJH ou, às vezes, JHWH, o que é igual ao nome de Deus. Assim, o nome JHWH é explicada aqui como sendo a afirmação categórica da parte de Deus de que Ele está sempre conosco: Estou com você. E termina dizendo que é sob este nome JHWH que Ele quer ser invocado, de geração em geração. Deus já não quer ter outro nome, a não ser este: JHWH ou JAVÉ, que significa: Estou com você, Estou que Estou, Tô que Tô, Ele está no meio de nós, Deus conosco, Emanuel! O nome é a expressão do compromisso que Deus assumiu com o seu povo de estar sempre no meio dele para libertá-lo da opressão.
      2.3. As resistências
O diálogo entre Deus e Moisés (de Ex 3,1 a 4,18) é o diálogo de todos nós. Moisés resiste à vocação porque tem medo. Mas ele não fala claramente. Disfarça o medo atrás de outros motivos e pretextos. Mas cada vez de novo, Deus desfaz a racionalização e desmascara o pretexto.
             2.3.1.Primeiro pretexto: humildade: “Quem sou eu?”
Moisés apresenta humildade para esconder o medo: Quem sou eu para ir ao faraó? Deus poderia ter respon­dido: “Não, Moisés! Você é capaz. Você se formou na escola do faraó. Você tem diploma! Tem capacidade, poder e formação suficientes!” (cf. Ex 11,3; At 7,22). Mas Deus não responde ao pretexto. Ele vai direto ao motivo verdadeiro que era o medo, e diz: “Estou com você!” Aqui, nestas três palavras Moisés recebe a confirmação básica da sua vocação. Deus não oferece dinheiro nem armas, nem diploma. Apenas diz: “Va! Estou com você!”  Nada mais. Não existe uma garantia mágica que me dê certeza sensível de que Deus está comigo. O único acesso a Deus é a entrega total na fé. É crer que ele está conosco, comigo! Se eu tiver a coragem de me entregar e de deixar Deus ser Deus na minha vida, poderei ter a certeza absoluta da presença libertadora de Deus na minha vida.
             2.3.2.Segundo pretexto: ignorância: “Qual o nome?”
Moisés não se dá por vencido, e busca um outro pretexto. Ele imagina que o povo vai perguntar pelo nome de Deus. Este segundo motivo é real, tem fundamento. Pois eles já estavam 400 anos no Egito e Deus nunca tinha mostrado a sua presença. Deixou que sofressem por quatro séculos! E agora de repente aparece Moisés dizendo que Deus o enviou para libertar o povo. Para o povo Deus já não tinha nome, já não existia, não representava mais nada. A pergunta pelo nome também revela o desejo de poder manipular a divindade através do uso mágico do nome.
Na realidade, o problema não era o nome de Deus, mas era o próprio Moisés que não conseguia crer na promessa divina Estou com você!  Novamente, a resposta de Deus não se dirige ao pretexto do nome inventado por Moisés, pois Deus não responde: “Meu nome é Javé”. Ele se dirige ao pretexto, à falta de fé e de confiança de Moisés. Dizendo Estou que Estou, Deus simplesmente está repetindo o que já havia dito anteriormente: “Estou com você!” Tô que Tô!  Ou seja, ele reafirma de maneira categórica: ”Certissimamente estou com você!” Em seguida, abreviando a mesma expressão, ele diz: “Estou me mandou”. Quando Deus fala de si mesmo ele usa a primeira pessoa singular e diz “Estou”. Quando nós falamos a respeito de Deus, usamos a terceira pessoa singular e dizemos: “Está”. Em hebraico a palavra Está se escreve JHJH ou JHWH. O nome antigo recebe aqui um significado novo de grande alcança. A certeza de fé que o nome Javé comunica à toda pessoa chamada é esta: “Certissimamente estou com você!” Esta é a certeza maior, o centro da nossa fé, o eixo da Bíblia. Só no Antigo Testamento o nome Javé aparece mais de 7000 vezes. Cantado e contado, em prosa e verso, de mil maneiras , em todas as tonalidades e formas literárias.
             2.3.3.Terceiro pretexto: a falta de fé dos outros: “Não vão crer em mim!”
Mas Moisés (o povo do cativeiro, todos nós) não está convencido e vem com outra dificuldade: “E se não acreditarem em mim, o que é que vou fazer?” (cf. Ex 4,1). Moisés esconde o medo e a falta de fé atrás da pretensa falta de fé do povo: “O povo não vai acreditar em mim!” Na realidade, quem não acreditava, não era o povo, mas sim o próprio Moisés. Em resposta, Deus o faz realizar três sinais milagrosos: mudar o bastão em serpente (Ex 4,2-5), fazer a mão ficar cheia de lepra (Ex 4,6-8) e mudar a água do rio em sangue (Ex 4,9). Trata-se de histórias bem populares para mostrar a Moisés que ele não podia ter esse pretexto para escapar da vocação. Era para ajudá-lo a crer no chamado.
             2.3.4.Quarto pretexto: incapacidade física: “Sou gago, não sei falar”.
Moisés inventa outra dificuldade: “Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar!” (Ex 4,10; 6,30). Deus desfaz o argumento, pois ele é o criador da boca dos homens (Ex 4,11-12). Não tem cabimento inventar este pretexto do defeito no falar junto ao Criador da boca dos homens!
             2.3.5.Motivo verdadeiro: “Não quero, mande um outro!”
Moisés insiste: “Não, meu Senhor, mande a quem quiser!” (Ex 4,13). Ou seja, mande a quem quiser, mas não a mim. Aqui Moisés falou claro. Deixou de esconder-se atrás de pretextos e refúgios e, finalmente, disse aquilo que estava no fundo da sua alma: “Não quero! Mande um outro!” E Deus também falou claro expressando novamente a sua vontade com relação à missão de Moisés: E você vai! Pode levar Aarão com você, que tem língua boa para falar! (Ex 4,14-17; 7,1-2).
             2.3.6.A resposta final de Moisés: aceitou a vocação
Moisés aceitou a vontade de Deus, foi para casa e disse ao sogro: “Vou voltar para o Egito para ver se meus irmãos ainda vivem”. O sogro respondeu: “Vai em paz!” (Ex 4,18).
O que teria acontecido se Moisés não tivesse ido? Talvez tivesse sido um bom executivo do faraó, um devoto fiel do Deus Rá, divindade suprema do sistema piramidal do Egito. Talvez tivesse recebido, depois da sua morte, uma pequena pirâmide como sepultura, e os arqueólogos do século XXI talvez o descobrissem, mas nós não estaríamos aqui para participar deste curso do CESEP.  A história teria tomado um outro rumo.
3. O chamado de Elias
      3.1. Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo está no cativeiro da Babilônia e tenta reler as grandes figuras do passado para encontrar nelas algumas luz para clarear a escuridão em que se encontravam. Uma luz foi encontrada na releitura da história do profeta Elias, que viveu no século IX antes de Cristo no tempo do rei Acab e da rainha Jezabel (cf. 1Rs 17 a 21). Eles olhavam não só o lado exterior e grandioso deste grande profeta, mas também e sobretudo o lado interior e escondido das suas crises e dúvidas. O estado de depressão em que Elias ficou ao fugir diante da ameaça da rainha Jezabel era um espelho da situação deles mesmos no cativeiro e de muitos de nós:
“Elias sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte, dizendo: "Chega, Javé! Tira a minha vida, porque não sou melhor que meus pais". Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: "Levante-se e coma". Elias abriu os olhos e viu bem perto da cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu e deitou-se outra vez”. (1Rs 19,2-6)
Elias só quer comer, beber e dormir. Como muitos dos exilados na Babilônia, Elias tinha perdido o sentido da vida. O anjo voltou uma segunda vez e, finalmente, Elias desperta, reencontra a força e caminha, quarenta dias e quarenta noites, até chegar no Monte Horeb (1Rs 19,4-8), onde, séculos antes, naquele mesmo lugar, havia nascido o povo de Deus (Ex 19,1-8). Elias volta às raízes! Era esta a caminhada que o povo do cativeiro devia fazer: voltar às raízes para poder redescobrir e reabastecer a vocação! Hoje existem muitos anjos e anjas a bater na porta do nosso coração para nos acordar e fazer assumir a vocação.
No Monte Horeb, Deus o interpela:
“Elias, que fazes aqui?” Ele responde: “Eu me consumo de zelo pela causa do Senhor, pois os filhos de Israel abandonaram a aliança, derrubaram os altares e mataram os profetas. Fiquei só eu e até a mim eles querem matar!” (1Rs 19,10.14).
Existe uma contradição entre o discurso e a prática. Conforme o discurso Elias é o único que sobrou; mas na prática havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso Elias está cheio de zelo; mas a prática mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3). Conforme o discurso ele sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não sabe analisar o seu próprio fracasso, pois nem percebe a presença do anjo.
      3.2. O chamado
O olhar de Elias estava perturbado por algum defeito que o impedia de avaliar a situação com objetividade e de perceber a vocação de Deus. Não é que ele tivesse perdido a fé, mas já não sabia como enfrentar a realidade nova com a fé antiga. Havia algo de comum entre Elias e seus perseguidores: ambos matavam em nome de Deus! Foi em nome de deus (Javé) que Elias matou os 450 profetas de Baal (1Rs 18,40). Foi em nome de deus (Baal) que Jezabel matou os profetas de Javé. Havia algo de errado na imagem de Deus que animava Elias na sua luta contra Baal. Por isso, seu olhar estava perturbado, incapaz de avaliar a situação com objetividade.
Como descobrir os enganos que nos impedem de perceber a vocação, o chamado de Deus? Qual a imagem de Deus que deveria estar hoje em nós? Esta era e continua sendo a pergunta fundamental. A resposta é dada em seguida na história da Brisa Leve.
       3.3.Descobrir os enganos, os caminhos errados
Elias recebe a ordem: “Saia e fique no alto da montanha, diante de Javé, pois Javé vai passar!” (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se prepara para o encontro com Deus. Momento solene! No passado, naquela mesma Montanha, Deus manifestara sua presença no furacão, no terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes sinais tradicionais da presença de Deus eram os critérios que orientavam Elias na sua busca. Mas acontece o inesperado: Deus já não está no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que, pouco antes, lá no Monte Carmelo, havia sido o grande sinal da presença divina a queimar o sacrifício diante de todo o povo (1Rs 18,38). Parece até um refrão que chama a atenção: “Javé não estava no furacão!” – “Javé não estava no terremoto!” – “Javé não estava no fogo!” (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! Elias vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos outros no cativeiro o imaginavam e desejavam.
É a desintegração do mundo de Elias: espelho da desintegração da vida do povo no cativeiro depois que Nabucodonosor mandara destruir os sinais tradicionais da presença de Deus: o templo, o rei, a posse da terra. Caiu tudo! A imagem que Elias (o povo do cativeiro) tinha de Deus quebrou em mil pedaços. É o silêncio de Deus! Na língua hebraica, este silêncio, é expresso com as seguintes palavras: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” Mas a palavra hebraica, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa suave”, que veio depois do furacão, terremoto e fogo, indica uma experiência, que, como um golpe suave e inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. É puxão de orelha, tapa na cara! Mesmo dado com suavidade, não deixa de ser tapa! Tapa que desperta, quebra a ilusão irreal e faz a pessoa colocar o pé no chão. Na realidade, a brisa suave, o tapa na cara, era o próprio exílio que tinha destruído tudo e obrigava o povo a uma conversão radical.
       3.4.A resposta final de Elias
Elias cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha descoberto a presença do apelo de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou! Aprendeu a lição! A situação de derrota, de morte e de secularização em que se encontrava o povo no cativeiro é percebida por ele como sendo o momento e o lugar onde Deus o atinge. A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de todas as representações e imagens! Escuridão luminosa! Não é a luz no fim do túnel, mas sim a luz que já existia na escuridão do próprio túnel e que Elias não enxergava. É uma luz diferente.
A experiência de Deus na Brisa Leve dá olhos novos e produz uma mudança radical. Elias descobre que não é ele, Elias, que defende a Deus, mas é Deus quem defende a Elias. É a sua conversão e libertação! Reencontrando-se com Deus, encontrou-se consigo mesmo e com a sua missão. Descobriu sua vocação lá, onde pensava que Deus não tivesse nada a dizer-lhe! Imediatamente, ele parte para cumprir as ordens de Deus. Uma delas é ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Renasce a profecia! A luta pela justiça renasce da experiência da gratuidade.
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção na vocação de Sara e Abraão, de Moisés e de Elias? Por que?
2. O que mais atrapalha a você na realização da sua vocação:
    * a falta de fé ou de confiança? (Abraão e Sara)
    * o medo? (Moisés)
    * idéia errada da vocação e de Deus? (Elias)
3 Qual o tapa na cara de que hoje estamos precisando ou que já estamos recebendo e ainda não percebemos?
4. Quais as idéias erradas sobre Deus que hoje nos desviam do caminho e nos impedem de descobrir nossa vocação?


               CESEP, CURSO DO VERÃO, 14 a 16 de janeiro de 2008

JUVENTUDE: VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS (I)


I
A RAIZ DA NOSSA VOCAÇÃO
Deus tem vocação, e se compromete com ela chamando a nós
Diz o livro do Êxodo (Ex 2,23-25):
“Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus. Deus ouviu as queixas deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu a condição dos filhos de Israel e a levou em consideração”.
E um pouco mais adiante diz novamente (Ex 3,7-10):
“Javé disse (a Moisés): "Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e parafazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus. O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam. Por isso, vá. Eu envio você ao Faraó, para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel".
Deus tem vocação. A vocação de Deus é o grito do povo oprimido! Deus foi chamado pelo povo sofrido e deixou que o chamado entrasse dentro dele. Escutou, e deu uma resposta coerente. Deus foi fiel à sua vocação. A Bíblia anota sete passos bem precisos da maneira como Deus respondeu à sua vocação:
1. Deus ouviu as queixas, escutou o clamor dos oprimidos.
2. Deus lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó.
3. Deus viu a condição, a miséria do seu povo e a opressão com que os egípcios o atormentavam.
4. Deus conheceu os seus sofrimentos e os levou em consideração.
5. Deus desceu para libertá-lo.
6. Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil.
7. Deus chamou Moisés e o enviou ao faraó para tirar o povo do Egito.
Os sete passos da resposta à vocação
Vale a pena cada um e cada uma de nós fazer uma análise da sua própria vida e da sua vocação percorrendo estes mesmos sete passos que Deus percorreu para dar uma resposta adequada à sua vocação: OUVIR, LEMBRAR, VER, CONHECER, DESCER, DECIDIR, CHAMAR. Não são passos distintos, um depois do outro, mas são os vários aspectos da resposta que damos ao chamado que recebemos.
1. OUVIR:  Deus ouviu o clamor.
A gente deve aprender a escutar o grito calado do pobre; deve aprender a perceber os problemas dos outros, do povo; a estar atento aos acontecimentos. Como Jesus na estrada de Emaús, devemos aproximar-se das pessoas, caminhar com elas, fazer silêncio para escutar o que conversam e perguntar; ter um desconfiômetro para perceber eventuais resistências, desvios e enganos. O ponto de partida é saber fazer silêncio dentro de nós para poder escutar a vocação.
2. LEMBRAR:  Deus se lembrou da aliança com Abraão, Isaque e Jacó.
Muitas vezes, ao presenciar um fato na rua ou escutar uma notícia na televisão, você se lembra de alguma situação já vivida antes. Os fatos que acontecem hoje trazem de volta as coisas do passado, seja da família, seja do Brasil. E esta lembrança do passado, por sua vez, ajuda a dar uma resposta mais coerente aos apelos que recebemos hoje. A memória do passado é chave para poder analisar bem a situação de hoje e perceber os apelos ou as vocações que aí existem para nós. Sem memória do passado, não há futuro para o povo!
3. VER:  Deus viu a miséria do seu povo.
Todos os dias, vemos a miséria do Brasil: pobres na rua, brigas em família, desemprego, fome, violência, etc., mas nem sempre nos damos conta do que está acontecendo. Vemos as coisas mas não as percebemos. Nós nos acostumamos e nos tornamos insensíveis diante dos problemas do país e das pessoas. Não analisamos as coisas, e para acalmar uma possível rebeldia da consciência arrumamos motivos e pretextos para não nos envolver. Por falta de análise crítica da realidade não enxergamos o apelo e, mesmo vendo, não descobrimos nossa vocação.
4. CONHECER:  Deus conheceu os sofrimentos.
Na Bíblia, a palavra conhecer indica não só um conhecimento teórico obtido pelo estudo. (Isto pertence ao terceiro passo do VER). Na Bíblia, conhecer indica uma experiência prática, obtida na convivência. Uma coisa é conhecer de longe, outra é sentir de perto. Quem vive em condomínio fechado não sabe o que sofre um favelado. Quem esteve na casa do desempregado sabe o que significa não ter o que comer. Uma vocação que não se envolve não atinge o seu objetivo.
5. DESCER:  Deus desceu para libertar o seu povo.
A situação do povo que gritava fez com que Deus saísse do lugar onde estava para colocar-se no lugar onde estava o povo. Mudou de posição. Fez opção pelos pobres e oprimidos. Descer significa mudar de posição social. Para poder assumir sua vocação é muito importante a pessoa fazer algo, por menor que seja, para descer,  mudar de posição. Por exemplo, no jeito de oferecer uma ajuda aos outros; na hora de votar; nas decisões que se tomam; na maneira de fazer análise dos problemas; etc. Diz um provérbio: “A fome na China pode ser grande, mas meu calo dói mais!” É colocando-me no sapato do outro, que percebo que a fome na China dói mais que o meu calo.
6. DECIDIR:  Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa.
Deus ouviu, lembrou, viu, conheceu e desceu. Agora Ele começa a agir, tomando decisões concretas a partir da posição do outro com o enfoque do outro e elabora um projeto para libertar o povo daquele situação. Percebeu que do jeito que o povo estava não podia continuar e que era necessário encontrar um outro modo de viver. O projeto levou quarenta anos para ser realizado. Deus parece não ter pressa. Ele não planta alface. Planta é jacarandá.
7. CHAMAR:  Deus chamou Moisés e o enviou para tirar o povo do Egito.
Chamou Moisés, Moisés chamou Aarão, Aarão chamou outros, os outros chamaram outros. Iniciou-se um processo que chegou até nós. Deus tomou iniciativas, envolveu pessoas, fez com que os outros passassem pelo mesmo processo. A raiz da vocação de Moisés era a preocupação de Deus em ser fiel à vocação que ele (Deus) estava recebendo do povo, e em atender ao chamado dos oprimidos. A raiz da nossa vocação é a vocação de Deus. Através do chamado que Ele nos dirige e que nós descobrimos dentro dos fatos, Deus vai dando uma resposta à vocação que ele está recebendo hoje dos pobres, aqui no Brasil. Foi assim que Jesus viveu a sua vocação lá na Palestina, e que nós também devemos experimentar e viver a nossa vocação. Isto dá maior profundidade e compromisso ao que já estamos fazendo.
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Pergunta para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
*  Reflita sobre a história da sua vocação pessoal a partir dos sete passos da vocação de Deus

               CESEP, CURSO DO VERÃO, 14 a 16 de janeiro de 2008